Esta comunicação foi elaborada a partir da entrevista com Francisco Teles, presidente da Federação Baiana de Escritores e organizador da antologia poética Ego Luz (1979). Inicialmente, pensava-se que a antologia tratava de uma revista devido à sua diagramação e aspecto físico, mas pôde-se verificar mais tarde, através da entrevista com o próprioque tratava-se realmente de uma antologia. Tentarei através desta comunicação analisar a dificuldade de publicação de livros por mulheres, e a conseqüente alternativa de espaços alternativos – revistas, periódicos, folhetins – como meio de publicar seus trabalhos.
Os pequenos escritores têm uma dificuldade muito grande emconseguir publicar seus trabalhos, pois as editoras são muito seletivas e direcionadaspara ocânone. A dificuldade de patrocínio aliada aos altos custos de publicação, com os quais não podem na maioria das vezes arcar, dificulta sobremaneira a efetivação da publicaçãopelos escritores deixando que muitos deles, na maioria das vezes, caia no esquecimento ou procurem outras maneiras de levarem à frente este trabalho. Mas esse problema agrava-se quando entra em questão a escrita feminina.
No século XIX, até princípios do século XX, os críticos e a opinião pública em geral, consideravam algumas atividades não “compatíveis” com as habilidades tidas comonaturais para o sexo feminino, e uma delas era a atividade intelectual. A intelectualidade e a esfera pública estavam reservadas aos homens, enquanto que às mulheres eram reservados os sentimentos e o confinamento à esfera doméstica. À mulher cabia cuidar da casa, dos filhos e do marido. A criação artística era considerada como um dom essencialmente masculino. À mulher cabia o papel de musa ou criatura, nunca criadora. Por preconceito de que a literatura era inadequada para seu sexo, pela religião, pelo papel que deveria desempenhar na sociedade burguesa, a mulher era excluída da atividade intelectual e da escrita. O que não deixa de ser compreensível.A palavra tem poder e à mulher não estava reservado o poder, tendo portanto que ficar afastada dela.
A escrita para a mulher tinha o peso de um crime. SegundoLizir Arcanjo[1],em sua antologia de poesias de mulheres baianas que publicaram no iníciodo século XX,“eraquase um delito”, e por isso, “aproveitar assuntos circunstanciais, como nascimento, morte, casamento, aniversário, etc. para compor poemas era uma prática masculina de que as mulheres também se valiam para dar expansão ao desejo de escrever e publicar, numa época em que para o sexo feminino a atividade literária era olhada com desconfiança.”. Sendo assim a escrita transformou-se em uma válvula de escape para as mulheres que queriam fugir do confinamento em que viviam. Por conviverem na esfera doméstica e aí terem sido instruídas, mesmo com o surgimento de novas tendências para a criação poética da época, a mulher limitava-se a escrever sobre seus sentimentos e quando não o fazia, deveria selecionar bem o tema, pois a classe masculina não via com bons olhos a mulher que se desviasse dos padrões canonizados da literatura que vinha sendo desenvolvida naquela época.
Diminuídas pela crítica, essas mulheres começaram a criar suas próprias formas de expressão. No final do século XIX, e início do século XX, na Bahia, começam a surgir jornais e revistas de interesses femininos, muitos deles criados e mantidos pelas próprias mulheres. A maioria das mulheres que escreveram no século XIX – e foram muitas – somente publicaram em jornais e periódicos, dando início às suas trajetórias literárias.Para Sylvia Perlingeiro Paixão[2], a imprensa foi muito importante “como veículo divulgador por excelência da literatura feita pelas mulheres.”. Nestas revistas e jornais os principais temas abordados, inicialmente, eram educação, a casa e os filhos, religião, patriotismo e produções das leitoras (versos, prosas, logogrifos, charadas,quadras,anedotas). Segundo Lizir Arcanjo Alves “possivelmente teriam sido essas as primeiras tentativas de um grupo de mulheres constituir uma sociedade propriamente separada do grupo masculino”.
Algumas idéias acima podem parecer sem importância relevante para a atualidade, mas encontram eco ainda hoje. Muitas mulheres, atérecentemente, não conseguiampublicar seus trabalhos pelo simples fato de “serem mulheres”. Para algumas pessoas ainda prevalece o pensamento de que a mulher é incapaz de produzir um texto de boa qualidade, de que a mulher só fala sobre seus sentimentos e não é capaz de escrever um texto científico. De certa forma essas idéiasforam internalizadas por algumas mulheres, que se consideram incapazes apesar dos bons trabalhos que produzem. A idéia de que a mulher não pertence à esfera pública ainda vigora, embora mais tênue. A mulher letrada ainda é considerada à margem.
Existe também a problemática do cânone. Às mulheres sempre foi negada a inserção ao cânone, apesar de termos nomes como Cecília Meireles e Rachel de Queiroz, que abriram caminho para as outras mulheres. Mas existem mulheres que apesar da excelência de suas obras, estão esquecidas em depósitos bolorentos ou são jogadas fora como papel velho e inútil, pelo fato de serem desconhecidas e “sem serventia para o Estado”. E apesar de as estarmos resgatando ainda assim são marginalizadas pois são tidas à parte e não no amplo conjunto da Literatura Brasileira.
Tendo em vista estas dificuldades, Francisco Teles, presidente da Federação Baiana de Escritores, resolveu “cortar a distância entre o pequeno escritor e a literatura”, segundo palavras do mesmo. Francisco Teles, sabe da dificuldade enfrentada pelos escritores para a publicação dos livros e criou a federação para facilitar este trabalho. Através da federação lançou vários livros de poesias além do Ego Luz (Apenas emoções: antologia poética, Topo do mundo: antologia poética, Semeando a paz, Reencontro, Projeto SOS poeta, Pétalas de paz, A paz mora no coração do poeta, Mulher poesia hoje, Harmonia e Cristal), assim como também uma revista intitulada Bahia Literária (lançada em 1986, hoje fora de circulação), escritoras como Margarida Reimão, Valquíria Barbosa e Lindinete Pereira (hoje presidente da Academia Castro Alves de Letras) e algumas conferências, seminários e concursos de poesia.
A Federação Baiana de Escritores, foi fundada em 1977 por Francisco Teles com o objetivo de dar oportunidade de publicação a escritores de pequeno porte. Segundo ele: “tem muita gente boa que de repente não tem oportunidade”. A federação funciona em sistema de cooperativa, onde cada um contribui com uma quantia para ajudar na publicação e demais eventos. Não existe lucro. Teles faztudo: desde a escolha dos poemas a serem publicados (juntamente com a diretoria da federação), a diagramação, a divulgação, até a festa de lançamento. Os livros editados pela federação são feitos “para o povo que não gosta de ler”,palavras dele, e só tem a intenção de divulgar os escritores e a literatura. Para selecionar os poemas, eles fazem uma pequena eleição entre os apresentados e escolhem um ou mais, dependendo da quantidade de poemas apresentados. O tema é livre.
Segundo Teles, a maioria das pessoas que aparecem para publicação são mulheres (90%, segundo o entrevistado) e segundo ele próprio disse:
Eu acho que a mulher é mais sensível, a mulher escreve mais. Eu acho que a mulher está mais ligada ao sentimento. Acho que foi por isso que me apareceu mais mulher do que homem. Eu nem pensava na hora de organizar o livro. Eu só anunciava, mas só que apareciam mais mulheres. Não sei porque. Acho que é o sangue doce.[3]
No livro Ego Luz podemos encontrar tanto produções de homens como de mulheres, mas me deterei numa análise geral dos conteúdos dos poemas escritos pelas mulheres. As escritoras encontradas no livro foram: Amélia Rodrigues, Dária Ribeiro, Eliana Teles, Luz da Serra, Margarida Reimão, Maria de Fátima, Ourisvalda Teles, Susana Rheinschimitt e Virginia Sales. O tema recorrente namaioria dos poemas é o sentimentalismo, a religião e a maternidade. Os poemas são sempre dedicados à alguém: ou da família ou o filho(a) ou ao amado. Isso demonstra como elas estão inseridas no código e reafirmam a questão da mulher x sentimento x maternidade, já citado anteriormente. Não sabemos precisar a data de publicação destes poemas pelo fato de ainda estarmos em processo de pesquisa dos dados, porém, temos informações de que algumas das escritoras ainda estãovivas.
Jornais, revistas, periódicos, folhetins, e até calendários, foram utilizados pelas mulheres como forma de divulgação de sua obra e como forma de expressar sua vontade de libertar-se da exclusão masculina. Estes espaços alternativos de publicação também serão fontes de estudos para futuras pesquisas e pesquisadores, pois através deles as mulheres puderam registrar seus sentimentos, pensamentos e situações dentro da conjuntura de uma época. Devemos lembrar que através destes meios pudemos resgatar escritoras que estiveram por muito tempo esquecidas em bibliotecas e baús. Agora precisamos tentar tirá-las desse limbo, dessa margem onde se encontram, buscando inseri-las no cânone da Literatura Brasileira.
ALVES, Lizir Arcanjo (org.). Mulheres escritoras na Bahia: as poetisas – 1822 – 1918.
Salvador: Étera Projetos Editoriais, 1999.
DUARTE, Constância Lima (org.). Mulher & Literatura – V Seminário Nacional – Anais. Natal: UFRN: Ed. Universitária, 1995.
DUARTE, Constância Lima (org.). Mulher e literatura no Rio Grande do Norte. Natal: UFRN / CCHLA, 1994. (Col. Humanas Letras)
MUZART, Zahidé Lupinacci (org.). Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. 2. ed. rev. Florianópolis: Editora Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2000.
TELES, Francisco (org.). Ego Luz: antologia. Salvador: Federação Baiana de Escritores, 1979.
[1] Lizir Arcanjo ALVES (org.). Mulheres escritoras na Bahia: as poetisas – 1822 - 1918
[2] Sylvia Perlingeiro PAIXÃO. Gilka Machado e a esfera pública. In: Mulher e Literatura – V Seminário Nacional – Anais.
[3] Excerto retirado da entrevista com Francisco Teles, presidente da Federação Baiana de escritores.